domingo, 9 de julho de 2017

SIMONE VEIL, VIDA E MORTE...



Simone Veil foi enterrada, no dia 5 de Julho, no Cemitério de Montparnasse, depois de uma cerimónia fúnebre no Hôtel des Invalides (*). Presente uma multidão sobretudo de mulheres. 
Veio gente de todos os partidos políticos e de todas as classes sociais. Porque ela foi a mulher que não recuou perante nada, que não se acomodou na sua poltrona de Ministra ou de Presidente do Parlamento  e que lutou incansavelmente pela situação das mulheres. 
 no Parlamento 


Uma mulher linda, com uns olhos azuis lindos. O que não impediu que na sua vida, ainda adolescente, não passasse pelo 'martírio' dos campos de extermínio. A Shoah conheceu-a bem, ela que tinha só 16 anos. E que decidiu que nunca poderia esquecer. De facto escreveu na sua auto-biografia: "Quando estiver a morrer terei a Shoah na memória."

Em 2005, regressa a Auschwitz, com os filhos e os netos, acompanhada pelo Presidente Jacques Chirac.
Auschwitz, 2005

Toda a vida escolheu as lutas justas, talvez porque precocemente assistira à arbitrariedade e ao mal.
Quis escolher, pois, a defesa dos que sofrem injustiças, dos mais fracos que, na maioria dos casos, são as mulheres. Daí a sua luta a favor despenalização do aborto.
Por essa sua atitude foi insultada e ofendida mas nunca desistiu do que considerava ser uma medida justa para as mulheres, prisioneiras de uma lei feita por homens - lei hipócrita essa que ignorava a violência contra centenas de milhares de mulheres que abortavam em condições perigosas, ou morriam, ou acabavam na cadeia em nome de uma moral inexistente e obsoleta. 
Enquanto outras mulheres iam de avião a Londres ou à Bélgica onde abortavam sem qualquer problema ou penalização.

defendendo a lei do aborto

Simone Veil, Ministra da Saúde, vai defender a ‘lei de interrupção de gravidez’ (IVG), que ainda hoje tem o seu nome, nos anos de 1974 e inícios de 1975 quando é finalmente promulgada, em Janeiro desse ano.
No Cemitério de Montparnasse, a cerimónia decorre apenas  na presença da família e dos amigos mais próximos. Simone Veil desejara um enterro judaico. 

Criada numa família judaica ateia, ela própria agnóstica, decidira -depois da deportação para Auschwitz e Bergen-Belsen de que regressa viva- que a sua “judeicidade” seria até à morte imprescritível.

Os filhos convidaram uma mulher-Rabino, Delphyne Horvilleur, rabina do Movimento Judaico Liberal de França, para recitar o Kaddish. O Grande Rabino de França veio também. Gera-se uma certa dúvida sobre quem dirigiria a cerimónia.

Delphyne Horvilleur no final, diz: “Quando se celebra um símbolo tal do avançar das mulheres, como foi Simone Veil, é necessário ceder-nos o lugar.”

Ainda hoje, as mulheres continuam a ter de empurrar para serem vistas. De facto, nessa tarde sairá uma notícia dizendo que Mme Horvilleur não tivera nenhum papel importante na cerimónia. Não impediu que, no final do kaddish, as netas de Simone com os mesmos olhos azuis que ela tinha fossem abraçar a Rabina.

O que diria Simone Veil? Creio que mostraria uma certa impaciência, Depois de tantos anos de luta!
Achei interessante contar esta história que li em Le Monde de anteontem, sexta-feira.
 Panthéon

Seja como for é certo que Simone Veil será daqui a uns tempos trasladada para o Panthéon. E, com ela, irão as cinzas do marido, com quem viveu 67 anos e com quem queria continuar até sempre…

(*) OHôtel des Invalides, ou Palais des Invalides é um monumento mandado construir por Luís XIV, em 1670, para abrigo dos inválidos dos seus exércitos. Hoje, é nele que se realizam as cerimónias fúnebres dos militares mortos no campo de batalha e de certas personalidades do Estado. 

(**) o Kaddish é a prece especial dita nos enterros em memória aos entes falecidos, geralmente realizada pelos filhos ou parentes mais próximos ou pelo rabino.

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